Camarões aguarda Leão XIV: desafios e riquezas do país que busca unidade
- 15/04/2026
Dando continuidade à sua viagem à África, o Papa Leão XIV segue para Camarões, país que aguarda com esperança e expectativa que esta visita dê impulso à paz e reconciliação nacional
Da redação, com Vatican News

Cartazes de boas-vindas a Leão XIV na capital de Camarões, Yaoundé / Foto: Reprodução Vatican News
O Papa Leão XIV irá visitar Camarões nesta quarta-feira, 15, dando seguimento à sua viagem ao continente africano. A chegada do Pontífice ao país está prevista para às 11h20 (horário de Brasília).
Um país jovem, rico em tradições e culturas, mas também marcado por uma grave crise econômica, pela instabilidade política e pela violência causada por uma década de confrontos entre o exército e os grupos separatistas anglófonos. O Camarões que se apresenta a Leão XIV, na quarta visita de um pontífice ao país, após as de João Paulo II em 1985 e 1995 e a de Bento XVI em 2009, quer acima de tudo demonstrar ser um “ator da paz”, capaz de “fé e reconciliação dos corações”, de modo a poder “curar as nações”. É assim que se expressam os cartazes de boas-vindas a Leão XIV que cobrem a capital Yaoundé.
O missionário do Pontifício Instituto Missionário para o Exterior (PIME), Padre Luca Galimberti, afirma que o encontro do Papa com os jovens de Camarões será um “encontro com os desejos e as expectativas”, mas também com as dificuldades desses jovens em relação ao mercado de trabalho. “[Muitos] continuam alimentando a esperança impossível de poder deixar Camarões, de poder ir para o exterior”, indica.
Outro fator é o número elevado, cerca de 500 mil, de refugiados e requerentes de asilo provenientes de países vizinhos, como o Sudão ou a República Democrática do Congo, criando, também por isso, uma situação social complexa e crítica.
Uma paz tão esperada
A visita do Papa é importante para todos aqueles que se sentem abandonados: as crianças do Orfanato Ngul Zamba, em Yaoundé, ou os pacientes do Hospital Católico Saint Paul, em Douala. “Isso lhes dará esperança e alegria”, explica o Padre Charles Marie Houngbo, franciscano da Imaculada, pároco da Paróquia Pentecostes de Newtown Aeroporto e vigário episcopal da Zona Pastoral Wouri VI na Arquidiocese de Douala. “Sua visita a esses lugares é um apelo, interpela as autoridades, sejam elas civis ou religiosas, forçando-as a compreender que devem pensar no bem das pessoas que sofrem”.
Padre Luca Galimberti recorda que as eleições presidenciais de outubro do ano passado, que confirmaram o oitavo mandato do presidente Paul Biya, criaram graves tensões no país devido às expectativas frustradas de muitos, e os protestos, que nunca se transformaram em ações armadas, foram, no entanto, fortemente reprimidos. “Restou a decepção, porque havia muitas expectativas para um futuro que, porém, nem sequer está no horizonte. Os projetos não brilham, por isso as pessoas estão desiludidas e, por isso, a tensão se acumula. Seria preciso conseguir ajudar Camarões a ter uma continuidade de paz, daquela paz tão ansiada”, acrescentou.
A jovem Igreja católica local, cuja missão chegou ao país em 1890 graças à ação dos palotinos alemães, é hoje, com razão, considerada um pilar da sociedade, promotora do diálogo entre as diversas províncias eclesiásticas, importante mediadora no âmbito social e com uma ação decidida de apoio àqueles que sofrem com a violência dos conflitos internos. Caracteriza-se, além disso, por uma forte expansão numérica.
Durante a visita de Leão XIV, a Igreja mostrará ao Pontífice o importante trabalho de unidade que está sendo realizado, testemunhado pelo encontro do Papa com os fiéis que, embora diferentes em língua e pertença tribal, participarão do encontro com Leão, todos, indica ainda Galimberti, “com a mesma alegria, com respeito e compreensão”.
A visita de Leão XIV
No país, o Papa visitará três cidades: além da capital, Yaoundé, também Bamenda (epicentro da crise anglófona), e Douala (importante porto no Golfo da Guiné e capital comercial do país).
As grandes expectativas concentram-se sobretudo na mensagem que o Papa levará a Bamenda, região anglófona dilacerada pela violência, palco do confronto entre as forças armadas e grupos armados separatistas que atuam para combater o que consideram uma marginalização por parte do governo central francófono.
“As palavras do Pontífice em Bamenda poderão ter um impacto significativo”, explica o Pe. Luca, “sua presença será uma bênção em um lugar onde a tensão e o sofrimento são evidentes e, acima de tudo, espera-se que seja um impulso para a retomada do diálogo”. A expectativa de todos é que o Papa, em Bamenda, possa ser a voz do sofrimento das populações esquecidas e que, com sua mensagem, possa exortar a todos a redescobrir a identidade comum, para além da fragmentação política e tribal.
Padre Charles acredita que o apelo do Papa em Bamenda será pela paz e será dirigido a todos aqueles jovens “que têm armas nas mãos, para que larguem os fuzis e pensem em uma maneira diferente de resolver a questão. E é também um apelo a todos nós: ele nos pede para rezar, mas também para nos comunicarmos, para dialogarmos com as pessoas e as autoridades. É um apelo para unir todos os camaronenses, para vivermos como uma só pessoa. Estamos felizes em receber o Papa, e nossa esperança é que, após sua partida, essa mensagem permaneça de forma a impulsionar as autoridades e todos os cidadãos a compreender que é preciso mudar. Estamos esperando por essa mudança e por uma nova vida para todos os camaronenses”.
As consequências dos conflitos
A vida dos habitantes das regiões marcadas pelo conflito e pela ação terrorista do Boko Haram está refém da violência, e é aqui que se insere o importante papel da Igreja, promotora do encontro e da reconciliação, cuja ação se articula sobretudo na capacidade de manter a unidade, de suscitar a colaboração e a responsabilidade entre os cidadãos. Um exemplo disso foi o seu empenho, antes das eleições, em uma séria campanha de mobilização para as urnas e de inscrição nos cadernos eleitorais, ressaltando a importância do voto também como possibilidade de mudança.
“A Igreja – acrescenta Galimberti – sempre foi fonte de orientação e de conscientização para o povo, para que a humanidade se manifeste naquela fraternidade e naquela justiça que todos clamam”. Mas o caminho em Camarões continua complexo; o destino do país “não está nas mãos da Igreja”, apesar de sua importante ação, e seu crescimento econômico permanece indissoluvelmente ligado ao desenvolvimento internacional e às repercussões produzidas pelos graves conflitos em curso em diversos países. Um aspecto que caracteriza o país, assim como o resto do mundo, é o aumento dos gastos com rearmamento, que implica a subtração “de fundos importantes da gestão ordinária de um país que já sofre”.
O testemunho da caridade
O impacto das crises internacionais, assim como em outros países do continente africano, manifesta-se de forma violenta também em Camarões, onde o corte na ajuda ao desenvolvimento por parte dos países de alta renda foi tão significativo que levou ao encerramento de muitos projetos humanitários e à drástica redução das parcerias com organizações internacionais.
Também neste caso, permanece fundamental a ação da Igreja local, bem enraizada, que aguarda o Papa para ter com ele, indica ainda o Pe. Luca, “uma troca de experiências e para testemunhar com alegria a ação em um país onde a fé é viva e presente. Uma Igreja que tem a tarefa de testemunhar Jesus e Sua força, que transforma as relações e permite a liberdade do coração. A Igreja vive encarnada neste povo, cujo sofrimento, muitas vezes, passa despercebido”.
A ideia, conclui Galimberti, é permanecer sempre no essencial, para acompanhar as pessoas a viver a fé tal como o Senhor pede, como testemunho de vida fraterna e de caridade para com os mais pobres. Isso nunca deve ser esquecido e é isso que a Igreja em Camarões continua a fazer”.
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