Mês da Bíblia: o desafio de cultivar a fé juvenil na era digital

  • 10/09/2026

Coordenadora do grupo Jovens Sarados explica como ultrapassar a leitura rápida das redes e transformar o contato com as Escrituras em uma experiência de vida

Thiago Coutinho
Da redação

Foto: Marjhon Obsioma por Unsplash

Em setembro, a Igreja celebra o Mês da Bíblia, período dedicado às Sagradas Escrituras. Neste contexto, as redes sociais e os diversos aplicativos de oração se tornaram uma porta de entrada para as Escrituras. Mas este formato digital ajuda ou limita o contato do público juvenil com a Bíblia?

“Quando vamos falar sobre a fé e o ambiente das redes sociais, temos que ter muito cuidado”, observa Ester Vieira, coordenadora do grupo Jovens Sarados, fundado em 2008 pelo padre Edimilson Lopes, sacerdote da Comunidade Canção Nova, cujo objetivo é levar a evangelização a jovens e adultos. “Em alguns aspectos [a internet] ajuda a propagar mais, a despertar a curiosidade. Agora, sob outros aspectos, algumas questões relacionadas à fé ficam mais difíceis de serem trabalhadas, de serem aprofundadas, principalmente por essa dinâmica mesmo de conteúdo rápido. Levar esse jovem para algo mais profundo é muito difícil, pois nas redes sociais há muito estímulo”, acrescenta Ester.

A jovem, porém, não nega que a rede mundial de computadores é um ótimo veículo para a evangelização. “Ajuda nesse sentido de propagar mais o Evangelho, de contribuir, de alguma forma, para que a Palavra esteja em mais momentos na vida das pessoas, principalmente dos jovens. Mas, ao mesmo tempo, limita no sentido de ser algo muito rápido e muito supérfluo”, analisa.

Pílulas bíblicas

É comum encontrar no ambiente virtual uma facilidade conhecida como “pílulas bíblicas” — versículos curtos e isolados que podem ser consumidos em segundos. Mas as Escrituras Sagradas demandam dedicação e atenção para serem compreendidas em sua plenitude. Como, então, fazer os jovens transporem essa leitura rápida e funcional para um estudo que seja verdadeiramente profundo?

“A principal barreira [para esta leitura] é a atenção”, opina a coordenadora do grupo Jovens Sarados. “Há muito estímulo nas redes sociais, pois é tudo muito rápido, muita música, alguém lendo aquele versículo. Quando vamos fazer um estudo bíblico, é necessário um ambiente silencioso. A leitura bíblica demanda meditação, reflexão”, aconselha.

Para Ester, é necessário fazer anotações e buscar um momento para rezar e poder receber aquela palavra. “Tudo o que é uma experiência demanda tempo, preparo. E a leitura bíblica é essa experiência. Então, vejo que é necessário trabalhar no jovem essa consciência da importância e da necessidade do estudo bíblico, além de ajudá-lo a entender o passo a passo: o momento, o silêncio… Senão, eles acabam achando que é só aquilo que recebem na rede social. É como se não percebessem que existe algo além”, pondera.

Silêncio e reflexão

Como citado previamente, a leitura orante é uma prática secular pautada pelo silêncio e pela reflexão. Adaptar à realidade da comunicação contemporânea esse conceito que a Lectio Divina requer — ou seja, leitura, meditação, oração e contemplação — não é uma tarefa fácil.

Nos retiros organizados pelos Jovens Sarados, Ester explica que não há tantas adaptações em relação ao que é o método tradicional. Segue-se o que a Igreja ensina, mas sem se limitar ao ritmo natural de pregação e oração, inserindo também um momento de deserto para o estudo bíblico. “Em um outro dia, fomos à capela e explicamos para eles o que era o estudo bíblico. A pregação em si era explicar como se faz o estudo e como é o método da Lectio Divina, que é o que usamos hoje no Jovens Sarados, para depois dizer: ‘olha, agora vocês aprenderam, então vamos colocar em prática'”, detalha.

E, pela experiência adquirida, o método funcionou. “Foi muito legal. Ali a gente já indicava qual seria o versículo. E também explicávamos que não precisava ser uma leitura de um capítulo inteiro ou de uma passagem inteira. Às vezes, um versículo chamou a atenção; então, fique naquele versículo e viva a experiência ali”, relata a coordenadora.

É importante, porém, ter uma rotina disciplinada, seguindo o que o saudoso Padre Jonas Abib ensinava com o método “A Bíblia no meu dia a dia”. “Uma vez, conversando com uma jovem, disse-lhe: ‘escolha um horário do seu dia e determine que aquele será o momento do seu estudo bíblico’. É mais difícil no começo, mas depois vira rotina, e isso ajuda a sermos fiéis e a deixarmos o celular um pouco de lado”, aconselha.

Maturidade espiritual

Indo além do hábito da leitura, as transformações de comportamento e de maturidade espiritual podem ser nítidas em quem se dedica a ela com afinco.

“Quando o jovem de fato mergulha na Palavra de Deus e tem essa intimidade com Ele, é muito nítida a mudança de postura e de responsabilidade, por exemplo, no dia a dia”, atesta Ester. “Conseguimos perceber esse amadurecimento nas obrigações em casa, no trabalho ou na faculdade, e na forma de lidar com a vida. A Palavra nos transforma, nos modela.”

E as mudanças se tornam duradouras e ainda mais perceptíveis para aqueles que convivem com esses jovens. “É muito bonito ver o que acontece na vida de um jovem quando ele de fato mergulha na Palavra de Deus. Ele começa a vivenciar a vida sacramental e a buscar as virtudes. É gratificante ver esses efeitos. Esses jovens ficam mais dóceis, mais fáceis de lidar. É muito bonito”, finaliza Ester.

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FONTE: https://noticias.cancaonova.com/igreja/mes-da-biblia-o-desafio-de-cultivar-a-fe-juvenil-na-era-digital/


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